Leituras complementares

depois do poemão

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Depois do Poemão
Heloisa Buarque de Holanda

Em meados dos anos 70, como sempre com a maior propriedade, Cacaso declarava: “Estamos todos escrevendo o mesmo poema, um poema único, um poemão”.

Havia, claramente, certos sinais no ar que a literatura captava e poetava, ainda que se evidenciassem variações no alcance crítico e lírico desse poemão. Um sufoco, um mal-estar  – substancialmente diversos do voluntarismo e da euforia da década anterior – abria, a berro e a soco, o lugar para a fala e para a urgência de se experimentar a poesia no dia-a-dia.  Aqui, não se tratava apenas da poesia com a marca suja da vida. Percebia-se um esforço para agir e viver a definição de um cotidiano especial, descompromissado, desburocratizado e bem-humorado.  Era o que principalmente se registrava no poema síntese, instantâneo, no poema muito e qualquer coisa. Na poesia que se experimentava a toda hora e em todo lugar.

Ainda Cacaso, dedicando a Chico Alvim:

Poesia
eu não te escrevo
eu te
vivo
e viva nós!

Assim, poesia e vida se casavam promovendo  uma prática que, longe de ser pacífica, tentava com vigor crítico algumas respostas ao momento negro que experimentávamos.  Surge uma multidão de poetas, cria-se um público, inventam-se formas independentes de produção, distribuição e veiculação para a literatura. A alegria e o humor como guerrilha. Por maiores que se mostrassem as diferenças entre os poetas e grupos emergentes, Cacaso estava com a razão: o poema era único. A grande novidade desse poema, e também sua maior força, vinha no deslocamento de eixo da crítica social que passava a se atualizar na experiência individual, no sentimento, na subjetividade. Mudança que soube ser perigosa e, certamente, política.

É possível se pensar a poesia marginal dos anos 70 em várias direções. Fico aqui com um de seus aspectos: um espaço de resistência  cultural, um debate político. Em pleno vazio, os jovens – e os não tão jovens – põem em pauta os impasses gerados no quadro do Milagre e desconfiam progressivamente das linguagens institucionalizadas e legitimadas do Poder e do Saber. Simultaneamente, evidencia-se na produção novíssima a significativa reavaliação de um certo sentimento que informou o engajamento político e cultural pré-68. Instala-se a ênfase na importância das questões relativas à prática cotidiana, à dúvida e à descrença nos programas, no alcance do projeto revolucionário na arte e, por extensão, nas formas da militância política tal como foram encaminhadas pela geração anterior.  Inventam saídas, criam alternativas. À revelia das Academias, a literatura se impõe e se alastra de maneira surpreendente, numa hora em que o debate político e cultural, a muito custo, conseguia abrir brechas apenas nos chamados circuitos alternativos.  Nesse sentido, pode-se afirmar que, hoje, a imprensa nanica seja a grande fonte de pesquisa para a história da cultura nos anos 70. Espaços como o Parque Lage – gestão Rubem Gerschman – fazem parte dessa história.  História da maior importância e ainda não analisada suficientemente; que só agora começava a ser compilada de modo sistemático no excelente trabalho do centro de Cultura Alternativa sob a coordenação de Maria Amélia Mello.

Confesso que é com uma forte sensação de estranheza que me vejo aqui tratando a produção marginal como uma história de certa forma distante. Onde estão, hoje, os marginais? Não me refiro aos poetas. Para lembrar apenas o grupo Nuvem Cigana, com o qual trabalhei  mais diretamente, é possível responder: Charles, Chacal, Ronaldo e Bernardo continuam  produzindo intensamente, seus trabalhos cresceram em tamanho, forma e substância; são poetas. Chico Alvim, Cacaso, Eudoro Augusto, Afonso Henrique, Luiz Olavo Fontes e Pedro  Lage (que, ainda que sempre tivessem manifestado uma dicção própria frente à produção marginal, sem dúvida participaram desse debate) preparam uma supercoleção a ser lançada em breve, o que será para a literatura um acontecimento da maior importância. Por outro lado, na área jovem, a poesia independente prolifera. Seu traço prinicpal: a produção em grupo.  São os poetas de comunidade, de associações de bairro, de organizações, de periferia. Seu objetivo mais explícito: uma poesia popular, para ser lida e ouvida.  O tipo de publicação  mais recorrente: antologias. Trajetória semelhante vem conhecendo a imprensa alternativa hoje, basicamente associada a organizações e Partidos. Tanto a poesia independente quanto a pequena imprensa de agora evidenciam um projeto distinto das artimanhas e propostas originais da poesia marginal.

“Nunca se perguntou tanto quanto agora sobre o papel e a função do intelectual no Brasil dos nossos dias”

Onde teria ficado o poemão que Cacaso identificava há um tempo atrás?  Não creio que tenha simplesmente se evaporado no verão  quente da Abertura.  A vitalidade dos temas que trouxe para o centro das discussões sobre arte e cultura denuncia no mínimo como ingenuidade a hipótese de que esse poemão se tenha dissolvido como um modismo passageiro.  A crítica social  mais ligada ao cotidiano e à individualidade foi, inegavelmente, um avanço  em termos do debate cultural e político, além de responder, com eficácia, ao sentimento generalizado de falência e de fracasso que os 70 conheceram. Dificilmente um próximo passo poderá ignorar a quantidade de aquisições e experiências dessa geração.  Ao mesmo tempo, parece que esse próximo passo torna-se urgente. Particularmente a partir de 1978, com as alterações político institucionais promovidas pelo projeto de abertura, torna-se sensível a redefinição de espaços e papéis no interior da produção cultural.  A retomada do discurso político direto na imprensa, a reorganização das entidades sindicais e estudantis, os movimentos de massa, a novidade das associações de bairro mobilizam os debates e retiram da literatura e da produção cultural em geral o privilégio de ter sido, por um bom tempo, o espaço por excelência da discussão sobre a realidade e o momento brasileiro.  Em toda parte, a necessidade de formas mais explícitas de politização dos temas que há pouco eram, a muito custo, captados em entrelinhas. Não foi acaso o extraordinário sucesso dos trabalhos de Fernando Gabeiro, mesmo levando em conta suas inegáveis qualidades literárias. Em termos do projeto que a juventude atualizava na década passada, o caso Gabeira organizou, ou melhor, colocou alguns pingos em vários ii, principalmente no que se refere à articulação desses temas com uma prática política. Ainda via Gabeira, o que veio em boa hora foi a liberação de um trânsito menos engarrafado para as idéias sobre a subjetividade, a sexualidade, as minorias, as drogas, e mesmo o prazer, junto a certos setores de esquerda mais tradicional. Começa a se desfazer, de alguma forma, a acusação ortodoxa acerca da “irresponsabilidade e alienação da geração AI-5″.

Por outro lado, consolida-se a necessidade do tratamento desses temas a nível de uma discussão explicitamente política.  É a conhecida virada do Verão 80. Já nesse verão podiam ser notados alguns sintomas expressivos. Um grupo com o Asdrúbal Trouxe o Trombone, no maravilhoso espetáculo Aquela Coisa Toda, imperdoavelmente mal compreendido pela crítica, registra a consciência da oportunidade de suspender a festa e repensar o que foi “aquela coisa”. Simultaneamente, o supermaginal Sérgio Santeiro, com Rubem Gerschman, nos dá o longo e denso poema “Os Desaparecidos”, testemunho de geração que deve ser relido e revisto.  São algumas pistas de que a temperatura ia mudar.  Aqui uma outra pergunta não tão ao acaso: a quantas anda a Universidade Brasileira, território por excelência da mobilização jovem e da reflexão dos anos 60?  Qual sua significação hoje?  Ouve-se com freqüência a queixa do esvaziamento, da fragilidade e de um tom nostálgico na linguagem das reivindicações estudantis.  A carreira docente, por sua vez, é vista e sentida como desconfortável e, sobretudo, insuficiente no sentido de ser o campo inadequado para o projeto intelectual mais recente.  Não é raro que esse projeto se queira transpondo este espaço e mesmo se desvinculando desta forma.  Em certos setores esses traços são identificados como “despreparo físico” de docente e discentes.  Entretanto, esses mesmos alunos e professores reconstroem a UNE e se articulam em associações docentes  fortes e, como a greve dos professores universitários comprovou, com alcance e desenvoltura de mobilização e prática política.  Talvez o mais adequado fosse indagar: haverá no quadro do processo político atual alguma ressonância possível para as questões que a universidade possa propor? ou a universidade confina-se hoje em mero território acadêmico sem qualquer alcance político? O Ministro Portella pede demissão e promete um livro sobre o Intelectual e o Poder.

Enquanto o espaço institucional da Universidade se mostra pouco atraente e de curto alcance, a ênfase na individualidade que o poemão dos 70 encampou se revela carente de vigor para responder ao momento e vai perdendo a força como eixo de discussão.  A poesia volta à literatura a e se torna exigente. No campo do debate cultural, a dificuldade em se fazer prognósticos.  Alguns céticos propõem o maconho-populismo.  Outros, otimistas, conseguem identificar nesse slogan de evidente má-fé alguns índices de uma discussão mais conseqüente que deverá crescer e permear a produção cultural dos 80.  Um saldo positivo: nunca se perguntou tanto quanto agora sobre o papel e a função do intelectual no Brasil hoje.

Em tempo: será possível evitar, no encaminhamento dessas questões, a avaliação do alcance e da vitalidade do “silêncio” dos 70?